Economia Nacional

Aplicativos deverão detalhar custos das corridas aos consumidores

Fonte: Agência Brasil | Publicado em 25/03/2026

Aplicativos deverão detalhar custos das corridas aos consumidores
Análise Técnica: Essa medida é um passo importante para abrir a "caixa-preta" dos algoritmos de transporte individual por aplicativo. Para o passageiro, é o fim daquele mistério de pagar um valor alto em um dia de chuva e se perguntar se o motorista está realmente sendo recompensado pelo esforço ou se a plataforma está abocanhando a maior fatia do bolo. Ao detalhar o que vai para o prestador, o que é taxa de intermediação e o que é imposto, o governo força uma transparência pedagógica: o consumidor passa a entender o valor real do serviço e para onde o seu dinheiro está fluindo de fato. Pelo lado das empresas, essa regra deve gerar um desconforto estratégico. Com os dados expostos, a comparação entre as plataformas deixa de ser apenas sobre o "preço final" e passa a ser sobre a ética da divisão. Se uma empresa retém 40% de uma corrida e a concorrente retém 25%, o usuário (e principalmente o motorista) tem em mãos um argumento poderoso para migrar de plataforma. Isso pode gerar uma pressão competitiva saudável para que as taxas de intermediação sejam mais justas, já que a reputação das marcas passará a estar diretamente atrelada à percepção de "justiça" na remuneração de quem está ao volante. No entanto, o desafio será a execução: como apresentar esses dados sem poluir a interface do aplicativo ou tornar a experiência de compra confusa? Além disso, existe o risco de as empresas tentarem "maquiar" custos sob nomenclaturas genéricas para evitar críticas. De qualquer forma, é uma vitória para o consumidor consciente, que ganha o direito de saber se o seu "luxo" de pedir um carro está sendo construído sobre uma base de divisão equilibrada ou se está apenas inflando as margens de lucro das gigantes de tecnologia.

O Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) determinou que as empresas de aplicativos de entrega e de transporte informem o quanto do preço final pago é da plataforma digital e o quanto é da remuneração de entregadores ou de motoristas.

A portaria com a obrigação será publicada nesta quarta-feira (25) no Diário Oficial da União.

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“Sem a transparência e a informação, o consumidor não pode escolher. É um direito básico”, ressaltou  o secretário Nacional do Consumidor, Ricardo Morishita Wada. 

Segundo ele, “o descumprimento ao direito de informação, previsto há 35 anos no Código de Defesa do Consumidor, leva ao processo sancionatório.”

As multas por desrespeito à lei podem variar de R$ 500 a R$ 13 milhões.

“Nada como a transparência para mostrar quanto o trabalhador recebe, quanto essas plataformas estão lucrando de maneira abusiva com quase nada de custo”, afirmou o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos.

Boulos e Wada participaram nesta terça-feira (24), em Brasília, da apresentação do relatório final do Grupo de Trabalho Técnico (GTT) Interministerial de Entregadores por Aplicativo. O documento descreve medidas que serão adotadas imediatamente pelo governo federal e que não exigem aprovação do Congresso Nacional

Acidente de Trabalho

O documento elaborado pelo governo com a participação da sociedade civil também prevê a inclusão do item “Trabalhador de plataforma digital” nas fichas de notificação do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), preenchidas por hospitais e unidades de saúde que atendam entregadores e motoristas que tenham sofrido acidente de trânsito.

Com a medida, entregadores e motoristas poderão acionar a Justiça de Trabalho para garantir direitos a quem sofre com acidentes na jornada de trabalho. A medida foi elogiada por Edgar Francisco da Silva, conhecido como Gringo Motoka, presidente da Associação dos Motofretistas de Aplicativos e Autônomos do Brasil (AmaBRA).

Para ele, o trabalho exige carga horária excessiva e excessiva exposição a riscos, e “as empresas das plataformas não dão capacitação” a motoristas e entregadores, e “nem fornecem Equipamento de Proteção Individual” aos motoqueiros que fazem corridas para levar refeições e outras mercadorias.

Pontos de apoio

Outra medida anunciada é a instalação de 100 pontos de apoio, em capitais e cidades de regiões metropolitanas, equipados com banheiro, água, vestiário, área para alimentação, descanso e conectividade.

“O ponto de apoio traz dignidade”, ressaltou Junior Freitas, conhecido como Jr. Freitas, liderança do Movimento dos Trabalhadores sem Direitos. Para ele, os pontos de apoio são “uma questão de humanidade".

"É poder lavar a mão, poder usar o banheiro, poder se alimentar.”

Jr. Freitas tem expectativa que o menor valor da corrida dos entregadores, por eles chamado de “taxa mínima”, suba de R$ 7,50 para R$ 10.

“Quanto menos a gente ganha, mais fica exposto. Quanto mais ficamos expostos, mais temos riscos de sofrer acidente. A remuneração é um ponto essencial para a saúde. Quando o trabalhador se acidenta, ele fica sem receber”, afirmou.

De acordo com ele, a demanda por aumento da remuneração é fundamental para os trabalhadores dos aplicativos.

A expectativa é de que a pauta seja discutida no Comitê Interministerial de Monitoramento e Implementação das Ações para Trabalhadores por Aplicativos, coordenado pela Secretaria-Geral da Presidência da República em parceria com o Ministério do Trabalho e Emprego, com o propósito de manter diálogo com a categoria.

*Com informações de Lílian Reis e Ivan Richard, da EBC


Conteúdo original: Agência Brasil.